"Os portugueses nunca deixarão de me espantar. Uns berram por aí indignados contra a “austeridade” da “Europa” e não querem pagar o que lhe devem; outros persistem ainda em dar conselhos para o regresso dos bons tempos do crescimento e do pleno emprego (que acabaram por volta de 1968-69) e para a ressurreição de um mito, que só circunstâncias de acaso, inteiramente irrepetíveis, permitiam.
A “Europa” morreu há muito mais de vinte anos e hoje os portugueses não passam de um incómodo e de um prejuízo para a Alemanha e para os países que dependem dela.
Mas nem assim Portugal percebe que não é e nunca foi europeu. Mesmo quando a França (segundo o sr. Hollande) aldraba as contas do défice – de resto com o incitamento e a cumplicidade do sr. Barroso e do sr. Juncker – não alvorece no pequeno cérebro nacional que Bruxelas não levantará um dedo para nos tirar de sarilhos.
Para a Alemanha, e mesmo para a França, só contam os países, ou as regiões, do antigo império soviético entre Riga e Trieste. Portugal e a periferia mediterrânea (excepto a Espanha) são restos de uma política confusa, que se tem tarde ou cedo de liquidar e que, entretanto, precisam de se resignar a viver numa miséria recatada e cumpridora.
Nem a bofetada que o sr. Hollande aplicou aos nossos patriotas de trazer por casa os vai acordar. Afinal, não passámos séculos – como Belgrado e Bucareste – a imitar a França?"
no Observador - 06-11-2016

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